Garotos e garotas
Joshua Harris
Quais são as nossas diferenças e como ajudar-nos uns aos outros?
Quando preguei a mensagem que inspirou este livro, dirigi-me a uma
audiência masculina na sua totalidade, mas as primeiras palavras que
disse, foram dirigidas a qualquer mulher que quisesse escutar a fita
cassete da minha palestra. “Deixemos algo claro”, disse com um sorriso,
“esta mensagem não é para você!”. A audiência masculina protestou.
“E não me venham com a desculpa de que querem ‘entender aos seus
irmãos’”, continuei, “nada disso! Desligue o som agora mesmo!”.
Os rapazes concordavam que seria muito embaraçoso se houvesse mulheres
escutando a sessão de luxúria “exclusiva para homens”. Estávamos seguros
de que se as moças soubessem como lutamos com a impureza, nos teriam
como uma porção de animais obcecados pela sexualidade. Entre os homens
existe a crença de que a luxúria é questão de rapazes e que a moças não
podem entender.
Porém, poucos dias depois, recebi pedidos de muitas mulheres que
desejavam escutar a fita cassete. Várias planejaram falar do assunto em
grupos pequenos. Ouviram os rapazes que comentavam sobre a mensagem e
desejaram escutar, não porque desejavam “entender” os homens, mas
porque, também, elas lutavam com a luxúria. Tenho aprendido que os
homens e as mulheres têm mais em comum do que se pensa. Neste capítulo,
quero observar o que ambos possuem em comum quanto à luxúria, em que
somos diferentes e como podemos ajudar-nos uns aos outros.
Comecemos por desmascarar os erros conceituais mais persistentes que
temos a respeito do sexo oposto.
AS MULHERES TAMBÉM ENFRENTAM LUTAS
Ao falar da luxúria o maior erro com respeito às mulheres é que só lutam
contra a luxúria no âmbito emocional. Ao longo dos anos, muitos livros
cristãos (o meu inclusive) vêm enfatizando que os homens lutam com o
aspecto físico e devem guardar seus olhos, ao passo que as mulheres
precisam lutar contra as suas emoções. E se nesta generalização não se
fazem as ressalvas correspondentes, as pessoas talvez fiquem com a
impressão de que as mulheres nunca precisam lutar com a luxúria como um
desejo físico claro, ou que a sua luta contra a luxúria seja menos real.
Isso não é verdade. “Nós, mulheres, também temos impulsos sexuais”, me
escreveu Katie. “Creia em mim, como mulher virgem de vinte e dois anos,
sei o que digo”.
Meu objetivo não é convencer ninguém de que as mulheres lutam contra a
luxúria tanto quanto os homens, ou da mesma maneira; definitivamente,
não é isso que importa. Entretanto, muitas mulheres lutam contra a
luxúria, no que se pode chamar formas masculinas tradicionais: tentação
de ver pornografia, de se masturbar e se concentrar no intenso desejo
físico para com a relação sexual. Muitas vezes, estas mulheres têm
impedimentos na sua luta contra a luxúria porque a vergonha as consome,
devido à maneira particular em que lutam. “Parece que estive lutando
contra algo que é para rapazes”, disse uma jovem.
“É assombrosa a falta de recursos para mulheres que existe sobre esse
assunto”, me escreveu Carla. “Não há seminários para nós. O aspecto da
luxúria feminina está envolto na névoa e as mulheres necessitam entender
as raízes da sua luta”.
Outra mulher, chamada Kathryn disse que a luxúria parecia ser um tabu
entre as suas amigas cristãs. “Algumas vezes, tenho a clara impressão de
que sou a única cristã que luta com este problema”, explicou.
Você não é a única mulher que precisa fazer frente à luxúria física. A
Palavra de Deus diz: “Não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum
aos homens. E Deus é fiel; Ele não permitirá que vocês sejam tentados
além do que podem suportar. Mas, quando forem tentados, Ele mesmo lhes
providenciará um escape, para que a possam suportar” (1 Co 10.13).
Mulheres, não importa se o impulso sexual que tenham seja forte como o
dos rapazes, ou se não se compara com o de outras moças que conhecem. O
que importa é se buscam em Deus a força para controlar seus desejos. O
que importa é se fogem ou não, e se buscam a santidade porque amam ao
Senhor.
TODOS OS HOMENS SÃO MONSTROS?
Um dos maiores erros que existem com respeito aos homens é que o seu
problema com a luxúria é bem pior e mais sério do que acontece com uma
mulher. Em outras palavras, os homens são monstros, ao passo que as
mulheres são inocentes e puras.
Com certeza, a luxúria dos homens é mais evidente, mas não,
necessariamente, mais pecaminosa. Os rapazes têm maior tendência ao
visual e, como resultado, sua luxúria é mais visível. Além do mais, como
Deus criou o homem para tomar a iniciativa e buscar a mulher, suas
expressões de luxúria são, em geral, mais agressivas e descaradas.
Aqui há uma pergunta: a luxúria de um rapaz, descarada e evidente, é
pior que a de uma moça, mais refinada e sutil? Uma jovem de dezenove
anos, chamada Stacey não pensa assim. Escreveu-me a seguinte carta, em
que me contou como Deus lhe havia trazido convicção de pecado sobre
muitas das “inofensivas” expressões de luxúria das mulheres.
"Durante o deslize do ano passado, percebi o quão bem preparada está a
minha mente para a luxúria nas olhadas que dou para os rapazes. Os
rapazes podem ser objetos da luxúria tanto quanto as mulheres. Se
pudesse contar quantos filmes tenho ido ver com minhas amigas só porque
havia um ator lindo, envergonharía-me observar a quantidade. Além dos
programas de televisão e as capas das revistas. Toda nossa cultura pensa
que é perfeitamente normal as moças babarem diante de um tipo erótico;
na verdade, motiva essa atitude. No ensino médio, passei três anos nos
quais era fanática por um rapaz que tocava na banda e do qual não direi
o nome. Fui a inumeráveis quantidades de shows, nos quais gritava e
corria para frente, buscando me aproximar o máximo que pudesse do palco.
Se isso não é luxúria, não sei o que é. Reduzia o valor de um rapaz à
baixa condição de quão atrativo era no aspecto físico."
Não nos ajuda pensar que uma moça que experimenta a impureza sexual,
enquanto olha uma comédia romântica, seja menos desobediente que um
rapaz que experimenta sensações, ao olhar um filme proibido para menores
que contém cenas de sexo. Os dois estão dando concessões à luxúria.
O que quero destacar é que nenhum de nós deveria se sentir a salvo,
porque nossas expressões de luxúria são aceitáveis ou civilizadas,
conforme a nossa cultura. Não digo isso para desculpar o pecado de
nenhum homem, nem para tirar alguém da lama. Não quero dizer que os
rapazes não sejam maus. O que quero dizer é que toda luxúria é má.
Distantes da graça de Deus que opera em nós e nos transforma, todos
somos monstros. De qualquer forma que a luxúria se expresse, está
motivada pelo desejo pecaminoso de obter o proibido.
DE QUE MANEIRA SOMOS DIFERENTES?
Ainda que tenhamos muitas coisas em comum, Deus nos fez homens e
mulheres de forma gloriosa. Somos criados para complementar um ao outro.
Possuímos diferentes pontos fortes e “conexões” diferentes no aspecto
sexual.
Ao nos referirmos às diferenças entre homens e mulheres, as seguintes
declarações são, em geral, precisas e podem nos servir de ajuda, se as
observamos:
- Na maioria das vezes, o desejo sexual do homem é mais físico, enquanto
que o da mulher se encontra, quase sempre, mais ligado aos anseios
emocionais.
- Em geral, o homem está programado para ser o que inicia a relação
sexual e sua estimulação é visual; a mulher, por outro lado, está
programada para ser a que responde na área sexual e é estimulada por
meio do contato físico.
- O homem foi criado para buscar e tal busca o estimula; a mulher foi
criada para que a busquem e é estimulada quando procurada.
Não é maravilhoso ver como Deus fez homens e mulheres para interagirem
um com o outro? Fez os homens como uma inclinação ao visual, então, fez
a mulheres lindas. Fez os homens, a fim de que sejam os que iniciam,
então, desenhou as mulheres para desfrutarem ao serem buscadas. No
coração de todo o homem existe o desejo inato de cortejar e ganhar a
afeição de uma mulher. Deus planta no coração da garota, desde cedo, o
desejo de ser atrativa. Tudo isso é parte do maravilhoso desenho de
Deus.
Quando compreendemos o plano de Deus, isto nos ajuda a ver por onde os
desejos luxuriosos buscarão sabotar o propósito original. A luxúria
sempre começa com algo bom, como os espelhos dos parques de diversão,
toma o desenho de Deus e o distorce.
PRAZER E PODER
A luxúria tira o brilho e torce a verdadeira masculinidade e
feminilidade de maneiras danosas. Faz com que o bom desejo do homem de
buscar se reduza a “capturar” e “usar”, e com que o bom desejo da mulher
de ser bonita, se reduza à “sedução” e “manipulação”. Em geral, parece
que tanto a homens quanto a mulheres, a luxúria os tenta de duas
maneiras exclusivas: os homens são tentados pelo prazer que a luxúria
oferece, e as mulheres são tentadas pelo poder oferecido por ela.
O motor da luxúria em um rapaz é, em geral, o desejo de sentir prazer
sexual e físico. O “benefício” que a luxúria lhe oferece é sentir-se
bem. A luxúria do homem o leva a separar o corpo da mulher de sua alma,
mente e pessoa, e a usá-la em busca do seu prazer egoísta. Não é por
isso que a maior parte da pornografia está dirigida aos homens e pinta
as mulheres de forma exclusiva para o prazer deles? A pornografia
reforça a mentira de que as mulheres são brinquedos sexuais, a fim de
que os homens as desfrutem, que as mulheres gostam que as usem, não que
as amem nem as valorizem. Alguns homens preferem masturbar-se, olhando
pornografia, em vez de iniciar uma relação real com uma mulher, porque
isto lhes permite viver na fantasia de que seu prazer é tudo o que
importa.
Talvez, a mulher sinta a tentação de uma maneira similar, mas parece que
a luxúria não a alcança de maneira tão natural. O que a alcança de
maneira natural é o desejo de intimidade. Então, quando vê um homem
sedutor num anúncio publicitário, pode sentir-se tentada a fantasiar com
a idéia de ter uma relação sexual com ele, mas o mais provável, é que
esta tentação se encontre arraigada numa fantasia de relacionar-se com
ele, na qual o prazer físico é um ponto secundário, diante de seu desejo
de atenção apaixonada e intimidade emocional.
A luxúria oferece aos homens o prazer de sua sexualidade, sem o esforço
que exige a intimidade. Para as mulheres, oferece o poder de obter o que
querem no aspecto relacional, se usam sua sexualidade para seduzir. Uma
vez, o doutor Albert Mohler fez uma declaração escandalosa, mas precisa:
“Os homens se sentem tentados a entregar-se à pornografia; as mulheres
se sentem tentadas a produzir pornografia”. Se você é uma mulher, não
precisa pousar para uma fotografia, nem estar no elenco de um filme
pornográfico para produzir pornografia. Quando se veste e se comporta de
uma maneira desenhada, a princípio, para despertar o desejo em um homem,
você produz pornografia com a sua própria vida.
“Creio que a raiz da luta contra a luxúria para as mulheres é que
desejam dominar os homens, desejam controlá-los e manipulá-los por meio
do atrativo sexual”, me escreveu uma mulher casada de Knoxville.
“Se um casal caminha pela rua e os dois vêem um anúncio publicitário
muito sedutor, os dois podem se sentir tentados pela luxúria, mas de
diferentes modos. O homem se sente tentado pelo prazer sexual com a
mulher do anúncio, enquanto, nós, mulheres, desejamos parecer-nos com a
mulher do anúncio, porque sabemos que isso é o que querem os homens”.
Uma mulher chamada Josie concorda: “Existe um grau de poder na sedução,
ainda que tenha uma curta duração e seja falsa. Nós sabemos que
possuímos a habilidade de fazer com que um homem faça o que queremos,
quando nos vestimos e agimos de uma certa maneira”.
Diane evita os anúncios publicitários de lingeries e os vidros das
lojas. Devido ao seu pecado sexual passado e à maneira sedutora como se
vestia par atrair os rapazes, ver essas imagens lhe produzem ira a
frustração. Percebeu que uma das maneiras em que a mulher pratica a
luxúria é incitá-la nos homens.
O que o (a) tenta? Reconhece que muitas vezes, essas tentações se
intercambiam entre os sexos. Todos podemos nos sentir tentados perante o
prazer e o poder que a luxúria oferece; mas se compreendemos qual é a
inclinação habitual do homem e da mulher, quando estamos frente a
frente, encontramos ajuda para criar nosso plano de ação para lutar
contra a impureza sexual. Identificada a mentira específica da nossa
luxúria, podemos mudar a falsa promessa pela verdade específica da
Palavra de Deus. Só Deus pode nos dar um prazer duradouro e satisfazer
nosso desejo de intimidade.
