Cristo Vitorioso sobre o Diabo
Joel R. Beeke
Existe um estado perpétuo de guerra entre Cristo, o campeão de Deus, e o
diabo, o príncipe deste mundo (cf. Gn 3.15). Mateus 4.1-11 fala sobre
uma das grandes vitórias de Cristo sobre o diabo e o poder do pecado. Ao
final de um longo período de jejum, o diabo confronta Jesus com três
tentações.
Ordena a estas pedras
Na primeira destas tentações, o diabo usa a mesma tática que usou com
Eva, no Jardim do Éden. “Se és Filho de Deus, manda que estas pedras se
transformem em pães” (4.3). Satanás está se referindo às palavras
faladas pelo Pai no batismo de Jesus: “Este é o meu Filho amado, em quem
me comprazo” (Mt 3.17). Com efeito, Satanás diz: “É, Deus disse...? Você
realmente acha que Deus quer dizer que você é o Filho de Deus? Se você
é, porque a fome dói agora? Prove que você é o Filho de Deus tornando
estas pedras em pão”.
O diabo é esperto; ele sabe que a fome é uma espada afiada. E ele sabe
como usar a verdade em vantagem própria. Afinal, Deus pode fazer todas
as coisas; Ele é todo poderoso. Se Jesus é o Filho de Deus, Ele deve ser
todo poderoso também. Tudo o que Ele tem de fazer é falar uma palavra, e
uma mesa será preparada para Ele no deserto.
Jesus não cede ao diabo. Ele se recusa a usar seu poder divino para
aliviar sua fome física, escolhendo em vez disso fazer a vontade de seu
Pai, e suportar o sofrimento. “Está escrito, não só de pão viverá o
homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt. 4.4), Jesus
diz ao diabo. Ele cita Deuteronômio 8.3 e diz, com efeito: “Pão não é
suficiente. Eu sou dependente de meu Pai e de sua palavra, não de pão.
Eu vivo da sua mão. Eu não quero pão, se meu Pai não quiser dá-lo a
mim”. Jesus se recusa a separar a dádiva do pão daquele que é o Doador
do pão, ao contrário do que Adão fez. Adão empurrou de lado o Doador do
fruto ao estender sua mão para a dádiva em forma de fruto.
Jesus fala com autoridade; sua resposta é firme. Diferente de Eva, Ele
não debate com Satanás. Ele não chama um exército de anjos para expulsar
o diabo. Ele não usa seu divino poder, pois está vivendo no mundo como o
Servo sofredor de Deus. A única arma que Ele usa é a espada do Espírito,
a Palavra de Deus.
Jesus coloca-se em nosso nível. Se a Bíblia é suficiente para Ele, não o
deveria ser para nós? “Está escrito” deveria ser nossa única e
suficiente resposta às tentações de Satanás. E quanto a você? Você vive
do pão terreno, ou fazer a vontade do Pai e viver pela verdade e pelo
poder da sua Palavra é o seu “alimento necessário” (Jó 23.12)?
Lança-te daqui abaixo
Depois, o diabo leva Jesus ao topo do templo, na Cidade Santa – o lugar
mais sagrado em toda a terra. “Se és Filho de Deus, atira-te abaixo”, o
diabo diz. Ele cita Salmos 91.11-12, dizendo que os anjos vão proteger
Jesus se Ele pular. Em um momento, Cristo seria então reconhecido por
todo o mundo religioso como o Filho de Deus.
A tentação para Cristo é revelar-se a Israel em um estonteante show de
poder e de privilégio sobrenatural em vez de através do caminho do
sofrimento e da rejeição, como o homem de dores. O diabo está oferecendo
a Jesus um atalho em vez de uma longa rota de sofrimento e morte.
Isto não era uma tentação pequena, pois Jesus queria revelar-Se como o
Messias. Entretanto, Ele sabia que seguir a sugestão do diabo
traspassaria a vontade de seu Pai, que determinava que o Filho teria de
primeiro sofrer e, depois, ser glorificado. A exaltação de Cristo viria,
mas somente após sua
obra consumada e terminado o seu estado de humilhação. Portanto, Ele
disse ao diabo: “Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus”
(4.7). Desta vez, Jesus está citando Deuteronômio 6.16, referindo-se às
tentações de Israel, em Massá, onde os incrédulos filhos de Israel
exigiram
uma prova sensacional de que o Senhor estava entre eles (Êx 17.7).
Hoje, muitos estão ainda buscando sinais maravilhosos e maravilhas do
poder divino, mas Jesus ainda se recusa a dar um show. Ele não usa de
meios carnais para ganhar seus seguidores. Ele não veio para o
sensacionalismo. Ao invés disso, Ele continua em sua obra de convencer,
salvar e disciplinar, através de sua Palavra e pelo poder do Espírito no
coração dos pecadores, trazendo-os
à semelhança a Ele Mesmo – o que é a maior “maravilha” de todas.
Prostra-Te e adora-me
Finalmente, o diabo leva Jesus a uma alta montanha. Mostra-Lhe todos os
reinos do mundo e diz: “Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares”
(4.9).
“Todos os reinos” – que tremenda reivindicação! Em seus próprios termos,
o diabo tem a audácia de oferecer a Cristo todos os reinos da terra,
como se ele fosse senhor de direito sobre todos os reinos. Lutero
escreve: “Ele que, em sua primeira tentação, mostrou-se como um diabo
preto, e, na segunda, como uma luz, um diabo branco, usando até mesmo a
Palavra de Deus, agora se mostra
como um diabo divino, majestoso, que reivindica ser o próprio Deus”.
O diabo pode ser o príncipe deste mundo, pode até ser o deus do mundo,
no tempo presente, mas Deus é Rei para sempre. Como Salmos 24.1 diz: “Ao
Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que
nele habitam”. Esta é a última cartada do diabo. Em desespero, ele
pensa:
“Se apenas eu pudesse ter Jesus, mesmo por uma vez, para realizar um
pequeno gesto de adoração a mim em vez de ao Pai, eu ganharia a vitória
e, de fato, me tornaria o rei deste mundo”. Ainda hoje enfrentamos a
tentação de vender nossas almas ao diabo em troca de vãos prazeres e dos
tesouros
deste mundo. Temos de resistir ao diabo, citando Deuteronômio:
“Retira-te, Satanás: porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás,
e só a ele darás culto” (v. 10). Jesus novamente recusa-se a obter uma
coroa, sem suportar a cruz.
Nossa vitória em Cristo Que contraste entre Mateus 4 e Gênesis 3! Cristo
é vitorioso quando tentado pelo diabo em um deserto árido, e Adão falhou
quando tentado pelo diabo em um lindo jardim. Cristo é vitorioso com o
estômago vazio, estando sem comer por 40 dias (Mt 4.2), e Adão falhou de
estômago cheio, sendo capaz de comer livremente de toda árvore no
jardim, exceto de uma. E, como colocou o New England Primer: “Na queda
de Adão, nós todos pecamos”. Mas, graças sejam dadas a Deus, pois Jesus
superou o diabo, de modo que também podemos vencer o diabo. Em Cristo,
pela fé, somos chamados a viver pela Palavra de Deus, e a resistir ao
diabo, usando a mesma arma poderosa, a Palavra de Deus. As tentações são
muitas, e o poder do pecado é grande, mas a vitória é prometida àqueles
que se apegam fortemente à “palavra de Deus, a qual vive e é permanente”
(1 Pe 1.23).
Revista Fé Para Hoje n° 34 2009, Editora Fiel
