Peregrinação
João A. de Souza Filho
Maio, 2009
A idéia de que os cristãos são peregrinos na terra abasteceu a hinódia
da igreja com belíssimos cânticos, e vez que outra me surpreendo
assobiando, cantarolando ou ouvindo ressoar lá no fundo de minha mente
cânticos que falam da vida eterna e do céu. Aliás, cânticos que
raramente são entoados nos modernos cultos congregacionais, e que a nova
geração de crentes, convertida dos anos 1980 para cá desconhece.
“Sou peregrino na terra; e longe estou do meu lar”; “peregrinando, pelas
montanhas”, “quando a viagem acabar”, etc. Muitos e belíssimos cânticos.
No Novo Testamento o conceito de que os discípulos de Jesus são
peregrinos na terra veio com a primeira dispersão dos cristãos depois da
perseguição movida contra os discípulos com a morte de Estêvão. O
registro está em Atos 8. As epístolas apostólicas, a partir daí ensinam
os discípulos a viver como peregrinos. Pedro escreve suas epístolas aos
“forasteiros”, cristãos espalhados pela terra. “Ora, se invocais como
Pai aquele que, sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de cada
um, portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação (1 Pe
1.17). Tiago escreve aos judeus cristãos das doze tribos espalhados pelo
império. Como escreveu o autor aos Hebreus “andaram peregrinos (...)
errantes pelos desertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da
terra” (Hb 11.37-38).
E, de fato, séculos a fora os cristãos viveram como peregrinos na terra,
perseguidos por sua fé. Ainda hoje em várias partes da terra cristãos há
que por causa de sua fé na pessoa de Jesus vivem escondidos. São os
peregrinos.
E, se um peregrino não tem pátria e cidadania, Paulo avisa os cristãos
de Éfeso de que, neste aspecto, inda que vagando pela terra deixamos de
ser estrangeiros e peregrinos, porque temos cidadania; somos
“concidadãos dos santos” e somos da família de Deus (Ef 2.19). Portanto,
mesmo forasteiros na terra, temos a cidadania dos céus.
Por outro lado, mesmo vivendo estabelecidos na terra, como vem
acontecendo com a igreja brasileira, permanece o conceito de
peregrinação, e nos damos conta disso quando chegamos à terceira idade.
Como no cântico que o Oséias de Paula cantava: “Os anos se passam quais
rios a correr, e a vida qual sonho a desvanecer”. Então, por que não
voltar a entoar os cânticos de peregrinação?
Porque nesses últimos anos a ênfase dada em algumas igrejas é de que são
cânticos de fuga; cânticos dos desesperados. “Quando se fizer a chamada
lá estarei”. “Junto ao trono de Deus preparado; há cristão um lugar para
ti” e cânticos semelhantes já não são mais entoados nos cultos, apenas
em funerais! Os novos discípulos cantam rap e dançam; os antigos
choravam e anelavam os céus. Quem sabe os cristãos se tornaram
demasiadamente hedonistas, amando a terra e suas riquezas, por isso tais
cânticos são uma afronta aos desejos de enriquecimento e de vida
abastada aqui na terra. Esses são os contrastes que presenciamos nos
dias de hoje.
Claro, entendemos que não fomos salvos para vivermos foragidos,
perseguidos, andarilhos e errantes, mas para arar a terra, semear e
ceifar; criar filhos e vê-los procriar, mas, mesmo assim semeando e
ceifando ou tendo de vagar por cidades somos sempre peregrinos. Porque a
vida é uma peregrinação que se inicia ao nascermos e termina com a
morte. Talvez este último conceito inspirou os autores dos hinos que
cantamos. Agora, deve-se entender que os jovens não pensam na brevidade
da vida como os que estão vivendo lá pela casa dos setenta, oitenta anos
de idade. Não é o meu caso.
No entanto, companheiros cantem os cânticos de peregrinação, porque tais
cânticos abrem diante de nós os portais eternos cheios de glória e
esplendor, e nos lembram de que a vida passa célere. Em breve, todos
haveremos de nos deparar diante dos portões do céu!
Então, cantemos!
