Introdução à Meditação Diária
Dietrich Bonhoeffer
I. Por que meditar?
Porque sou um cristão, e porque cada dia em que não passeio mais
profundamente no conhecimento da Palavra de Deus na Sagrada
Escritura é desperdiçado. Eu só posso continuar na certeza do firme
fundamento da Palavra de Deus. E como cristão, eu aprendo a conhecer
a Sagrada Escritura apenas por ouvir sermões e por meditar em
oração.
Porque eu sou um pregador da Palavra, eu não posso expor a Escritura
a menos que eu deixe que ela fale a mim diariamente. Eu estarei
utilizando mal a Palavra em meu trabalho se eu não meditar nela
continuamente em oração. Se a Palavra parece muitas vezes vazia para
mim, se eu não a tenha experimentado, tudo isto é um sinal
inconfundível que eu, a muito tempo, não mais tenho deixado que ela
fale ao meu coração. Eu erro quando, a cada dia, eu deixo de
procurar a Palavra que o Senhor tem para mim naquele dia. Atos 6.4
fala particularmente sobre o ministério da oração para aqueles que
têm o compromisso de pregar a Palavra. O pastor deve orar mais do
que os outros, e ele tem mais motivos para orar.
Porque eu preciso de uma firme disciplina de oração. Nós temos
paixão por orar como nossa fantasia nos leva, por pouco tempo, por
muito tempo, ou até mesmo totalmente. Isso é teimosia. Oração não é
uma oferta livre que apresentamos a Deus. Nós não somos livres para
continuar como nós desejamos. Oração é o primeiro serviço do dia que
prestamos a Deus (Sl 119.147, ss., 164). Deus requer nosso tempo
para este serviço. Deus precisou de tempo antes de enviar Cristo
para nossa salvação. Ele precisa de tempo para vir ao meu coração,
para minha salvação.
Porque eu preciso de ajuda contra minha pressa que não é adequada, e
também da inquietação que põe em perigo meu trabalho como pastor. Um
serviço verdadeiramente dedicado todo dia só vem da paz [que
procede] da Palavra de Deus.
II. O que eu espero da meditação cristã?
Em todo caso, nós queremos nos erguer da meditação diferente do que
nós éramos quando nós nos prostramos desanimados. Nós queremos
encontrar Cristo em sua Palavra. Vamos ao texto curiosos para ouvir
o que dele precisamos saber, e o que nos diz através de sua Palavra.
A cada dia, encontro-o primeiro antes de encontrar as outras
pessoas. Toda manhã nEle descansamos tudo o que nos ocupa,
concernente a dificuldades, para que toda apreensão que nós temos
seja aquietada. Pergunte a si mesmo o que ainda está lhe impedindo
de O seguir completamente, e deixe-O ser o Senhor sobre isto, antes
que novos impedimentos surjam.
Sua proximidade, sua ajuda e sua direção para o dia pela Sua
Palavra, este é o seu objetivo. Desta forma começamos o dia
fortalecendo a nossa fé.
III. Como devemos meditar?
Há meditação tanto livre quanto bíblica. Nós recomendamos a
meditação bíblica para moldar nossas orações e, ao mesmo tempo, pelo
disciplinar de nossos pensamentos. Finalmente, nós preferimos a
meditação bíblica porque nos faz consciente de nosso companheirismo
com outros [irmãos] que estão meditando no mesmo texto.
A Palavra da Escritura nunca deve parar de soar em nossos ouvidos, e
trabalhar em nós ao longo do dia, como as palavras de alguém que
você ama. E assim como você não analisa as palavras de alguém que
você ama, mas aceita o que ele diz a você, aceite a Palavra da
Escritura e medite-a em seu coração, como Maria fez. Isto é tudo.
Isto é tudo. Isto é meditação. Não olhe para novas reflexões e
conexões no texto, como se você estivesse preparando uma pregação.
Não questione: “como passar isto para alguém”, mas “o que ele tem a
dizer para mim?” Pondere na Palavra longamente em seu coração e
deixe que ela te dirija e te possua.
Não é importante consumir o texto integral proposto para cada dia.
Nós ficaremos, freqüentemente, esperando um inteiro o que ele tem a
dizer. Deixe passagens incompreensíveis sossegadamente de lado, e
não se apresse a ir à filologia. Não há nenhum lugar aqui para o uso
do Novo Testamento grego; use o familiar texto de Lutero.
Se os seus pensamentos te distraírem ore pelas pessoas e situações
que te preocupam. Este é o lugar certo para intercessão. Neste caso,
não ore em termos gerais, mas ore de forma objetiva, por aquilo que
te preocupa. Deixe a Palavra da Escritura te conduzir. Pode ser de
ajuda você escrever calmamente o nome das pessoas com quem
conversamos e pensamos todos os dias. Intercessão precisa de tempo
se for levada a sério. Mas cuidado ao fixar um tempo designado para
intercessão, para que este não se torne uma fuga daquilo que é mais
importante, a busca pela salvação de sua própria alma.
Iniciamos a meditação com uma oração pelo Espírito Santo. Que ele
clareie o nosso coração e prepare a nossa mente para a meditação e
de todos aqueles que estarão meditando também. Então nos voltamos ao
texto. Ao término da meditação nós estaremos em posição de proferir
uma oração de ação de graças com um coração satisfeito.
A respeito do texto, como deve ser feito? Deve ser meditado durante
toda semana, um texto com aproximadamente dez a quinze versos. Não é
bom meditarmos um texto diferente a cada dia, pois a nossa
capacidade nem sempre é a mesma. Não importa o que aconteça, não
leve o texto no qual você irá pregar no domingo que vem. Isso
pertence à preparação do sermão. É de grande ajuda para uma
comunidade saber que você é participante do mesmo texto ao longo de
toda semana.
O tempo para a meditação é de manhã, antes de começar as tarefas.
Meia hora é o mínimo de tempo necessário para a meditação. Observe
que o pré-requisito é quietude extrema e o objetivo é não ser
distraído com nada, por mais importante que seja.
Uma atividade da comunidade cristã, infelizmente praticada muito
raramente, mas bastante útil, é quando ocasionalmente duas ou mais
pessoas se dispõe a meditar juntas. Mas que não tomem parte em
discussões teológicas especulativas.
IV. Como vencer as dificuldades da meditação?
Quem leva a sério a prática da meditação séria logo vai encontrar
algumas dificuldades. Meditação e oração devem ser praticadas por
muito tempo e seriamente. A primeira coisa que deve ser lembrada é
que não devemos ser impacientes consigo mesmo. Não se limite ao
desespero dos devaneios de seus pensamentos. Não tente reprimir os
pensamentos à força, mas inclua calmamente as pessoas e os
acontecimentos, para os quais os pensamentos teimam em voltar, em
nossa oração, voltando assim com toda paciência ao texto da
meditação. Deste modo, você não terá desperdiçado os minutos com tal
divagação, e estas não o aborrecerão.
Há muitas ajudas que cada um deverá buscar para as próprias
dificuldades especiais: Leia o mesmo texto repetidamente, escreva
seus pensamentos, e deixe o verso que te prende mais a atenção ficar
guardado no seu coração, meditando-o (de fato, de qualquer maneira,
a pessoa poderá ter qualquer texto, fora o que realmente foi
meditado, de cor). Nós também logo aprenderemos sobre o perigo de
escapar da meditação através de um estudo bíblico erudito ou de
qualquer outra coisa. Por trás de todas as necessidades e
dificuldades há realmente um engano quanto à nossa grande
necessidade de oração: muitos de nós permanecemos por um tempo
demasiado longo sem qualquer ajuda e instrução.
Em face disto, não há nada mais para ser dito, somente que devemos
começar novamente, fiel e pacientemente, nas mais elementares
práticas da oração e meditação. Você será ajudado, além disso, pelo
fato de que outros também estão meditando, o que toda santa Igreja,
em todo lugar e em todo o tempo, no céu e na terra, estão orando
juntos. Este é o conforto na fraqueza da oração. E apesar de saber
em todo o tempo, que não sabemos orar como convém, o Santo Espírito
intercede por nós, com gemidos inexprimíveis.
Nós podemos deixar esta preocupação diária com a Escritura, e
precisamos começar isto imediatamente, se nós já não fazemos assim.
Porque é nela que nós temos a vida eterna.
* * *
O documento anexo era um ensaio sobre meditações
diárias que tinham sido escritas por Eberhard Bethge, sob a
supervisão geral de Bonhoeffer.
Fonte: Dietrich Bonhoeffer, The Way to Freedom: Letters and Notes,
1935-1939 . Ed. Edwin H. Robertson. Trans. Edwin H. Robertson & John
Bowden (New York: Harper and Row, 1966), pp. 57-61.
