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Piercing, tatuagem, jóias e afins!
João A. de Souza Filho


Costumo tratar essas questões como temas culturais, isto é, coisas que vêm e desaparecem, para depois voltar outra vez. Nós os cinqüentões nos submetemos, quando jovens, a todo tipo de proibições que variavam desde o tipo de vestimenta – o tamanho da saia, o comprimento da costeleta ou suíça, o tipo de bigode, e dos cabelos... Mas as moças de meu tempo foram as que mais sofreram! Especialmente na denominação em que era membro: Ainda bem que foram favorecidas pelo surgimento dos coques à la Brigite Bardot – recheados de Bom-Bril para aumentarem de volume – o que as deixava na moda.

E quantas vezes assisti a cenas humilhantes de exclusão pública porque o vestido estava dois dedos acima do joelho, porque usou pó de arroz! Imagine! Pó de arroz dava exclusão! Esmalte, batom e ruge, nem pensar! Os homens, não. A começar pelo pastor que ostentava um exuberante bigode bem trinado a provar que era macho! E apesar das meninas não poderem usar jóias de espécie alguma, eis o pastor com um botton na lapela ou na gravata. Era humilhante! Bem, para falar a verdade, essas coisas ainda existem em algumas regiões de nosso estado em pleno século XXI como se fosse doutrina!

Isso para não falar do rádio e da tevê. Ouvir rádio? Exclusão. Mas depois a igreja passou a usar o rádio para evangelizar e tudo mudou. Televisão? Fiz parte da comissão de minha denominação em 1972, numa convenção nacional para decidir se a tevê deveria ser liberada! Veja os caminhos por onde trilhei.

E nem precisou ir muito longe: os pastores que condenavam a tevê, eram os mesmos que tinham seus aparelhos escondidos no guarda-roupa do quarto! Refrigerantes? Nem pensar. Só sucos. Bem, mas isso foi no passado! No decorrer dos anos algumas pessoas se surpreendiam ao ver uma irmã de brincos, colar, batom e ruge profetizar! Isso era profanar o Espírito Santo, diziam! E quando deixei a barba crescer, precisei me municiar de textos bíblicos para provar que a barba, antes de mais nada, era a coisa mais aceitável e até obrigatória no Antigo Testamento. Mas aí as pessoas vinham com a história de José que, ao ser chamado para comparecer diante de Faraó barbeou-se! Eu respondia com dezenas de outros textos a meu favor!

Por fim, aprendi a andar municiado para me defender dos hipócritas religiosos xiitas que vivem fiscalizando as pessoas, estudando-as de alto a baixo, com a fita métrica a medir vestidos, a fazer comparações. Comecemos pela barba. Nada mais bíblico, especialmente se uma pessoa quiser ser fiel aos costumes dos tempos bíblicos – do que usar barba. Há mais textos abonando o uso da barba do que não. O único texto a favor dos sem-barba é quando José se barbeia para ir ao encontro de Faraó. Obviamente, porque os egípcios nãos usavam barba e se ele aparecesse lá barbudo Faraó teria chiliques espirituais. Se eu fosse radicalmente bíblico conforme costume dos judeus, todos deixariam a barba crescer, sem poder cortar os cantos, isto é, apará-la (Lv 19.27). Só desceriam às águas do batismo, os barbudos!

Vejamos a questão das jóias. Você já imaginou sua filha aparecer em casa com um brinco ou corrente pendurado no nariz e com enormes pulseiras de ouro – não as miçangas de 1,99? Pois foi assim que Rebeca apareceu diante de seu pai! (Gn 24.22,47). Na realidade o pendente de ouro usado por Rebeca não passava do que chamamos hoje de piercing! Não sei por que papagaiamos palavras americanas e os incluímos em nosso idioma! Era argola mesmo! Assim, não resta dúvidas de que o uso de jóias é questão de costume social que varia com o tempo. Se insistíssemos em ser radicalmente bíblicos, nossas esposas usariam argolas ou piercings no nariz! E aí vem a hora do batismo nas águas: A moça passa diante dos diáconos e, se estiver com as argolas, pode ser batizada!

A melhor ilustração do que quero afirmar foi contada pelo próprio Deus. Em Ezequiel 16 o profeta descreve a nação de Judá como uma criança, recém nascida, que cresce, fica moça e Deus a veste das melhores roupas e a adorna com as melhores jóias! (vv 11-12). Vale a pena ler o texto. Se Deus aprova o uso de jóias? Sim, desde que a pessoa não esteja em pecado. Quer dizer, ao contrário do que pensamos. Sempre achamos, que como prova de sua santidade, a mulher não deveria usar jóias, mas não é o que dizem dois textos bíblicos do Antigo Testamento. Por haverem pecado, as mulheres de Israel deveriam deixar de usar jóias! Em Isaías 3.16-23 Deus promete retirar as jóias da nação devido ao pecado. Até mesmo os piercings (v. 21). Aliás, foi devido ao pecado que o povo de Israel tirou das orelhas, pescoço e nariz as jóias que usava. Quando se está em pecado, as jóias não caem bem, é o que se depreende do texto de Êxodo 33.1-6. Sabe o que eram os atavios que as mulheres tiveram de tirar por causa do pecado? As jóias, colares, brincos e pendentes do nariz!

Assim, imagino que os pendentes voltaram com toda força, com outro nome, piercings! Por exemplo, quando vejo um homem de brinco, imagino a cena do escravo jurando lealdade ao seu senhor. Era levado aos anciãos – os velhos de sua cidade – a orelha era furada e uma argola era dependurada como prova de que ele agora era um escravo! Está em Êxodo 21.5-7. Assim, se você quiser colocar um brinco, pode fazê-lo como prova de que é agora escravo de Jesus! Não é uma boa?!

Nosso único problema de interpretação reside na ausência de opinião por parte dos apóstolos nessas questões. No entanto, levando-se em conta os costumes da época não é de se admirar que alguns obreiros usassem brincos – que os identificaria com algum povo, cabelos compridos, barba e as mulheres, jóias, coisa comum na época.

Com respeito a tatuagens também! A tatuagem vem de tempos remotos. E como qualquer costume cultural está ligada à religião. Não é preciso afirmar que a cultura dos povos sempre esteve ligada ao tipo de religião, inclusive a cultura dos judeus que indiretamente herdamos. Assim, se você pensa em fazer uma tatuagem, tome cuidado! Ela identifica você com algum tipo de crença! Por isso evite tatuagens com dragões, serpentes, caveiras, etc. E pense bem antes de se tatuar! É para sempre! Muitas das coisas que a igreja ainda insiste preservar não passam de costumes que mudam com os tempos. Esses são alguns deles.

A tatuagem, quase sempre era associada a crença num deus ou religião. Deus a proíbe para o povo de Israel por uma questão cultural. Os cananitas costumavam fazer cortes e tatuagens em homenagem aos mortos! Os textos de Levítico 19.28 e 21.5 é meio vago, porque são marcas feitas no corpo pelos mortos. Mas e esse negócio de raspar o cabelo todo como fazem os homens, hoje? Não era também condenado no Antigo Testamento? Uma questão cultural! Parece-me que as tatuagens e cabeça raspado hoje tem a ver com algum tipo de crença ou religião. É para pensar.

 
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