
Hans Küng: Por que ainda ser cristão hoje?
A
pequena obra do renomado teólogo suíço, que completou cinqüenta anos
de sacerdócio em 2004 e oitenta anos de vida este ano, escalda
questões da atualidade no ensino de Jesus de Nazaré, propõe que o
cristão que se orienta por ele e pensa sua fé com independência
encontra razões para permanecer nela, e defende a afirmação
consciente de fé para a atuação ecumênica e o diálogo
inter-religioso. Küng representa um momento áureo da produção
teológica: boa formação acadêmica, independência da reflexão,
coragem para a afirmação — sem propor nem aceitar a ruptura —, tendo
sido o primeiro teólogo a ser punido, sem sofrer os efeitos ao ser
protegido pela legislação alemã, dando início ao desvanecimento da
punição como limitação à reflexão teológica.
Esse resumo de suas idéias parte da queixa comum sobre as (des)vantagens
de ser cristão, só superada quando se recobra o sentido da
liberdade, da não-violência, do amor e da paz, da qual aprendeu que
nosso tempo não sofre falta de organização, mas de orientação.
Uma sociedade civilizada e um Estado supõem uma ordem de Direito,
que não pode existir sem uma consciência ou ética moral, que por sua
vez exigem valores, atitudes e normas básicos. Não se pode dispensar
a religião por não existir nenhum dever incondicional para
determinado agir sem uma autoridade com a qual se possa exigir
obediência incondicional ao absoluto. Esses valores sempre foram
oriundos de critérios cristãos. Por isso, assumindo o ônus teologal
da verdade, opportune importune, é difícil contradizer os que
esperam outra atitude do cristianismo, cujas estruturas eclesiais
foram descredenciadas com legalismo, oportunismo, arrogância e
intolerância.
Se o deus desconhecido (theós agnostos) dos Atos dos Apóstolos é sem
rosto, o da fé judaico-cristã é concreto, revelou-se na história,
não devora os que se aproximam nem é ambivalente, confuso,
hipócrita, não tem dupla face nem é mutável ou imprevisível. É um
Deus a favor da humanidade, além do qual não há outro, primeira e
última realidade para judeus, cristãos e muçulmanos, amigo do ser
humano e parceiro a quem podemos dirigir a palavra. É o sentido
oniabrangente e onipenetrante das coisas, cuja liberdade absoluta
não restringe, mas possibilita, capacita e conserva a liberdade
relativa do mundo, pelo que está na sua origem e no seu final.
Quem crê nele encontra, pela compreensão, a razão. Em sua presença
pode-se rezar, oferecer sacrifícios, dobrar os joelhos
respeitosamente, cantar e dançar, como ensinou Heidegger. A
orientação que nos falta vem de Jesus de Nazaré, figura histórica
com rosto humano, que agia em nome dele, pai do filho pródigo, em
vez dos piedosos e de quem se diz justo desde o princípio; que
também é mãe e dá, em vez de só exigir; que não humilha mas reergue;
não condena mas perdoa, não castiga mas liberta; que faz valer a
graça; que se alegra mais com a conversão do único injusto do que
pelos 99 justos; que deseja que sejam abolidos os limites entre bons
e maus, amigos e inimigos, distantes e próximos; e que não morreu no
nada, mas em Deus, por isso que está vivo através de Deus e com
Deus.
O Deus do começo é o mesmo do fim. O importante é o seguimento.
“Cristo é quem faz que isso seja possível para mim e por isso creio
nele”, diz Küng. Em tudo o que ele fez e sofreu encarnou a causa de
Deus. Ele chama ao seguimento na correspondência, orientado por ele,
definindo o que é ser cristão. Na cruz dele encontramos a resposta à
pergunta: por que somos honestos, delicados e, se possível,
bondosos, mesmo se enfrentarmos prejuízos, formos alvo da esperteza
e brutalidade dos outros? No seu Espírito se manifesta a nós um
sentido e objetivo último da vida e da história, a realização do ser
humano e da humanidade.
Na cruz, nossa existência crucificada adquire o sentido que o
sofrimento não pode desfazer. Isso não é atalho para fugir ao
negativo, mas habilidade para perseverar sem queixas, nem
autocomiseração, caminhar através do negativo para o futuro, ao qual
nos dirigimos por nossa vida e sofrimento. Humanismo radical não
inclui apenas o verdadeiro, o bom e o belo, mas o falso, o mau e o
feio, o por demais humano e o desumano.
Resposta à crise de orientação, Cristo é a alternativa entre a
rebeldia revolucionária e a covardia moral, entre o radicalismo
hipercrítico e a acomodação descriteriosa. Seguir essa orientação
faz as pessoas serem mais humanas e filantrópicas, e as igrejas
podem voltar a ser abertas, acolhedoras, hospitaleiras e
autenticamente confiáveis, trazendo esperança.
Ao analisar a atuação da sua Igreja, a Católica romana, a partir da
década de 1960, disse que ela foi aberta para fora e fechada para
dentro; lutou contra a pobreza, mas proibiu a pílula; defendeu os
direitos humanos, mas intimidou e puniu teólogos; abriu-se ao mundo,
mas discriminou as mulheres; fez visitas ecumênicas, mas acentuou o
marianismo e fechou a questão da infalibilidade. No balanço de
esperanças e desilusões, êxitos e derrotas, homens e mulheres
deixaram a vida religiosa, caíram a freqüência aos cultos, os
batismos e os casamentos, e a crise vocacional ficou dramática.
Diante da crise, Küng elenca as razões pelas quais resistir: porque
não se trai os sonhos da juventude, porque nossa visão não deixa de
ser verdadeira na adversidade, porque não se muda a atitude básica e
porque caráter, convicções e honestidade são deveres morais
fundamentais. Afirma ainda que resiste porque êxito não se traduz em
números, porque não é provado acima das forças e recebe o que
precisa para resistir, porque na impotência se manifesta o poder, na
fraqueza a força, na pequenez a grandeza e na humildade a
autoconfiança.
“Os relógios do mundo não andam para trás” e o Evangelho é mais
forte que a incapacidade humana. É preciso saúde física e psíquica,
humor, leveza e pessoas que não abandonam na hora da necessidade. O
importante não são os resultados, mas que sempre se preserve a
confiança, inabalável e incondicional.
Não haverá avanço no ecumenismo se não houver espírito reto e
verdadeiro. Ele exorciza:
"Sai, espírito imundo, que separas e divides, que arrastas e
atrasas! Afasta-te das igrejas e de seus centros de comando, das
faculdades e institutos, dos grêmios e comissões. Afasta-te dos
corações dos seres humanos, do nosso coração. E deixa o espaço
livre! Dá lugar ao Espírito Santo, que, forte e suave a um só tempo,
reconcilia, une e reúne, e que é força de Deus!"
É preciso sair da Idade Média, apesar das fórmulas mágicas e do lixo
barroco, e deixar-se orientar por Cristo, mantendo o olhar no Reino
de Deus e no próximo.
A obra de Küng é um testamento da carreira teológica, do rigor do
seu trabalho, da incompreensão, da resistência baseada na aceitação
da comunidade teológica e da conquista da independência.
(Extraído da Revista Ciberteologia - Revista de Teologia & Cultura,
Ano III n° 20)
Hans Küng nasceu na Suíça em 1928, estudou na Universidade
Gregoriana em Roma e Paris e foi ordenado padre católico romano em
1954. Lecionou na Universidade de Tübigen (1960-96), onde também
dirigiu o Instituto de Pesquisa Ecumênica a partir de 1963. Nomeado
pelo papa João XXIII como consultor teológico, Küng teve um papel
central na redação do documento final do Concílio Vaticano II, entre
1962 e 1965. Modernizou radicalmente áreas essenciais do ensino e da
prática católicos. Desde o início dos anos 1960, ele questiona
doutrinas tradicionais da igreja como a infalibilidade papal. Em
1979, uma censura do Vaticano que o proibiu de lecionar como teólogo
católico provocou grande polêmica internacional, mas a Universidade
nomeou-o para uma cadeira de teologia ecumênica. Ao se aposentar em
1996, tornou-se Presidente da Fundação de Ética Global em Tübingen.
Kung mantém boas relações com a Igreja. É autor de On Being a
Christian (1974), Does God Exist? (1978), Global Responsibility
(1991) e Christianity: Its Essence and History (1994).
